Os vinhos da Colúmbia Britânica, Canadá – Parte 2

Caríssimos leitores, para o deleite de vocês apresentamos a segunda parte do relato sobre os vinhos do Canadá. O destaque vai para a vinícola em formato de pirâmide. Boa leitura!

Os vinhos da Colúmbia Britânica (Canadá) – Vale do Okanagan

Prof.Dr. Joel Camargo Rubim
(Doutor em Química e Enófilo)

Segundo o WineAlign, das vinte e cinco vinícolas do Canadá mais premiadas em 2016, treze estão no vale do Okanagan (clique Aqui). A cidade central da região, Kelowna, situada às margens do lago Okanagan, fica a cerca de 390 Km de Vancouver. A estrada de Vancouver até Kelowna é muito tranquila e bem pavimentada, mas existe a opção de voos desde Victoria, ou Vancouver, até Kelowna. Em função das circunstâncias, os dois dias inteiros de estadia em Kelowna me permitiram visitar apenas quatro vinícolas: The Hatch Winery, Volcanic Hills Estate Winery, Rollingdale Winery e Summerhill-Pyramid Winery (FOTO). Certamente, é uma região para se ficar pelo menos um mês, aproveitando seus lagos, paisagens e bons vinhos. A seguir comentarei apenas sobre os vinhos das vinícolas visitadas que mais me impressionaram.

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A The Hatch está na nona posição entre as 25 melhores vinícolas do Canadá e na quinta posição entre as melhores da Colúmbia Britânica (BC). Desta vinícola destaco o Screaming Frenzy Pinot Noir 2014 (FOTO) e o Screaming Frenzy Meritage 2014 (Cabernet Franc e Merlot), medalha de prata com 90 pontos merecidos. Detalhe, quando degustei esses vinhos (julho/2016), eu não sabia da premiação da vinícola. O Pinot Noir premiado, The Hatch 2014 Prima Volta, 90 pontos, ainda precisa de mais alguns anos de garrafa pra ficar bom.

Canada 2ANCanada 2Cenhum vinho dos que degustei na Volcanic Hills merece destaque. Já na Rollingdale, a experiência foi excepcional.  Os Ice Wines da vinícola são espetaculares e caros, mas o que me surpreendeu foi o vinho de sobremesa deles, o Fort 2013, um vinho fortificado (tipo Porto) com 21,5% de teor alcoólico, feito a partir da uva Maréchal Foch. Outro vinho muito bom da Rollingdale é o Pinot Blanc 2015, muito bem equilibrado, um vinho refrescante que se pode degustar num dia de calor, com ou sem acompanhamento. Interessante destacar que essas três vinícolas ficam bem próximas umas das outras, ou seja, o terroir é muito semelhante. 

A Summerhill Pyramid é uma vinícola que vale a pena visitar, não só pela degustação de vinhos, mas pelo misticismo que cerca a vinícola, além de uma vista privilegiada do Lago Okanagan. Durante o wine tour você vai entrar numa adega em forma de pirâmide, onde os vinhos e espumantes repousam por pelo menos 12 meses antes de irem para o mercado. Minha experiência com os tintos dessa vinícola não foi boa, mas os brancos e espumantes são muito bons. Além do Riesling, os vinhos que mais gostei foram o branco Ehrenfelser 2014 (FOTO – a uva Eherenfelser é um cruzamento de Riesling com Silvaner) e o espumante Brut Cipes Ariel 1998, feito pelo método tradicional com uvas Pinot Noir e Chardonnay. Recomendo que a visita seja feita no final do dia, para apreciar o por do sol sobre o lago e um delicioso jantar no restaurante da vinícola. As quatro vinícolas demonstram preocupações ambientais em suas práticas, mas apenas a Rollingdale possui certificação orgânica e a Summerhill-Pyramid tem produção biodinâmica. Em todas as vinícolas, as degustações variam de 5 a 10 dólares canadenses e ficam de graça se levar uma garrafa de vinho.

Ao longo de minha estadia no Canadá pude degustar outros vinhos de BC. Do vale de Okanagan, os vinhos que me agradaram foram o Riesling reserva da Mission Hill, o unoaked Chardonnay da Bartier Bros., o Dead of Night 2014 da Moon Curser Vineyards, que é um blend de Syrah e Tannat. Degustei muitos Pinot Noir canadenses nesse período, mas um deles me impressionou muito, o Pinot Noir 2012 da Stoneboat Vineyards, também do vale de Okanagan. Finalmente, o branco canadense que mais me marcou foi o Unoaked Chardonnay Stahltank Family Reserve da Crowsnest Vineyards. Essa vinícola fica no vale de Similkameen, bem próximo ao Okanagan. Enfim, posso dizer que é uma experiência inesquecível apreciar as paisagens exuberantes da Colúmbia Britânica e degustar dos seus melhores vinhos.

Os vinhos da Colúmbia Britânica, Canadá – Parte 1

Atenção leitores e enófilos de plantão, apresentamos a seguir dois artigos produzidos por nosso amigo Joel, falando sobre vinhos canadenses, cuja indústria vinícola começa a despontar para o mundo, e não só pelos famosos ice-wines. Aproveitem o maravilhoso texto, e aguardem a segunda parte para próxima semana. Boa leitura!

Os vinhos da Colúmbia Britânica (Canadá) – Ilha de Vancouver

Prof.Dr. Joel Camargo Rubim
(Doutor em Química e Enófilo)

Quando se fala do Canadá sobre vinhos, sempre vem à mente os ice wines, vinhos com características adocicadas suaves, de baixo teor alcóolico. Os mais conhecidos são os produzidos na região de Niagara Falls (província de Ontário), que produz outros vinhos além dos ice wines. No entanto, a Colúmbia Britânica (BC), que fica na costa oeste do Canadá, também produz bons vinhos, os quais são pouco conhecidos no Brasil. O mapa ao lado mostra as regiões produtoras de vinho na BC. Relatarei aqui, em dois artigos, minha experiência, pequena, com os vinhos de duas dessas regiões, Ilha de Vancouver (não confundir com a cidade de Vancouver) e Vale do Okanagan. Neste primeiro artigo, falaremos dos vinhos da Ilha de Vancouver, onde fica Victoria, a capital de BC.

A Ilha de Vancouver, riquíssima em belezas naturais, conta com mais de vinte e quatro vinícolas, dispersas em quatro regiões: i) Vale do Cowichan, a mais proeminente região produtora de vinhos da ilha, onde fica a interessante cidade de Duncan (cidade dos totens), região das tribos Cowichan; ii) Penísula de Saanich, uma faixa de região agrícola na costa leste da ilha, ao norte de Victoria, na direção da cidade de Sidney; iii) Ilhas do Golfo (Gulf islands), com várias pequenas vinícolas de empreendimento familiar (Ilhas de Saltspring, Pender e Saturna) e iv) Vale do Comox, região mais ao norte da ilha, de tradição agrícola, com vinícolas próximas à Comox e Courtenay.

MapaIlhaVancouver  Symphony

Na passagem por Victoria, visitei apenas algumas vinícolas do Vale do Cowichan e da Península de Saanich. Em Saanich fiz desgustações na Muse Winery, Symphony Vineyards e De Vine Vineyards. Essas vinícolas ficam há cerca de 20 a 40 minutos do centro de Victoria. As três vinícolas produzem vinhos de uma uva tinta híbrida chamada Maréchal Foch, introduzida no Canadá na década de 40.  Gosto não se discute, mas os vinhos que mais me agradaram dessas vinícolas foram os brancos, em especial, aqueles vinificados com a uva Ortega (um cruzamento das uvas Müller-Thurgau e Siegerrebe). Um destaque para a Symphony, um lugar romântico e acolhedor, com um mini bistrô, onde é possível ter momentos muito agradáveis. 

No vale do Cowichan, situado há cerca de 1h do centro de Victoria, VenturiPNoir1bfica a maior comunidade das primeirasnações (povos indígenas) de BC. Nessa região degustamos vinhos na Blue Grouse Estate Winery, Cherry Point Estate Wines, Enrico Winery, Silverside Farm and Winery, Unsworth Vineyards, Venturi-Schulze Winery e Zanatta Vinotecca Winery. Vinícolas em destaque: i) Venturi-Schulze: aqui degustei um dos melhores Pinot Noir da região (Foto) e seus maravilhosos vinagres balsâmicos, alguns envelhecidos por 11 anos em média em barris de diferentes tipos de madeira, produzidos segundo técnicas tradicionais italianas antigas, além do balsâmico feito com maple (envelhecido 10 anos em barris de castanheira). ii) Zanatta: uma das pioneiras da ilha, aqui os destaques ficam para o espumante Taglio Rosso, produzido pelo método champenoise com uvas Cabernet Sauvignon e Castel e o Damasco, um vinho levemente frisante, produzido a partir de várias uvas brancas, onde, como o nome diz, sobressaem os aromas e sabores do damasco. Na Zanatta também se come muito bem, pratos bem apresentados, por preço razoável. iii) Silverside: a experiência aqui é diferente, pois se pode degustar bebidas deliciosas feitas a partir da vinificação de frutas silvestres como amoras pretas, framboesa e tayberry, um cruzamento de framboesa com amora preta. O vinho feito de tayberry, com 15,5% de teor alcoólico, é simplesmente delicioso. 

As preocupações com o meio ambiente estão presentes em todas as vinícolas visitadas, mas apenas a De Vine produz vinhos com certificação de produto orgânico (De Vine). A Venturi-Schulze tem uma produção sustentável, não faz uso de qualquer agrotóxico, porém não é certificada. Em todas as vinícolas, as degustações variam de 5 a 10 dólares canadenses e ficam de graça ao se levar uma garrafa de vinho. Mas, e os ice wines? Nenhuma das vinícolas que visitei produz ice wines, somente a Venturi-Schulze produz o delicioso vinho de sobremesa, Brandenburg No.3 2011, que, sem dúvida, faz jus ao nome.

Solarco Bianco Livon: o sol brilhante do Friuli

Solarco Livon 2011 (Friulano-Ribolla Gialla)

Vinícola de Udine, na Itália, de pequena produção – só 6.500 gfs. – fundada há 50 anos por Dorino Livon, que hoje entrega para sua terceira geração de vinhateiros do Friuli-Venezia. Mais um incrível vinho de personalidade, dos melhores brancos do norte da Itália. Autóctone, feito com uvas Friulano e Ribolla-gialla, este maravilhoso blend rende inúmeros elogios dos apreciadores daquela região. O formato da garrafa é outro diferencial, lembrando os ancestrais vasilhames do início do séc.XX. Adquiri-o numa pequena enoteca em Gênova, sem nenhum piscar de dúvida do senhor dono da loja, quando o pedi em aconselhamento.

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Aromas de pão assado, cheirinho delicioso de recém saído do forno, suave baunilha e algum cítrico. Na boca explode em sabores: surge maçã verde, frutas tropicais frescas, mirtilo e limão italiano. Nota 90 pts. Esta ampola não passa em madeira mas tem bom corpo para um branco, sem perder características de sabor refrescante. Um vinho perfeito com massas, especialmente de frutos do mar e defumados. Extremamente agradável no palato, ótima acidez e uma complexidade notável fazem deste rótulo algo que sempre pedimos num vinho branco: longa persistência. Maravilhoso!!

Por Antonio Coêlho

Um achado perdido no Piemonte: Le Piane

Le PIANE Boca 2005

LPianeLGDando continuidade à matéria anterior sobre o Jantar com Parmigiano (veja aqui), naquele evento também provei este vinho natural garimpado pelos amigos Wang TS e Renata Berford, em passagem pela Itália. Produção natural e método arcaico, este vinho ancestral denota enorme cuidado na plantação e vinificação. Do pequeno vilarejo de Boca (Novara) de só 1.500 habitantes, noroeste da Itália, este exemplar único de terroir, mostra as castas Nebbiolo (85%) e Vespolina (15%) – uva autóctone achada no Piemonte – em suas plenitudes aromáticas e frescas, diferentemente dos potentes conhecidos Barolos.

De fermentação lenta com leveduras indígenas, são produzidas só 9 mil ampolas. Com maturação de quatro anos em grandes tonéis de carvalho esloveno, mais um ano em garrafa. Na boca uma explosão de frutas vermelhas maduras, com ótima harmonia acidez/álcool. Taninos maduros e média persistência. Nota 91 pts, e pedindo MAIS. Vinho que vale cada centavo de Euro´s. Daqueles achados que nos arrependemos de não ter outro na bagagem, definitivamente!

Por Antonio Coêlho.
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Uma festa de Babette de Parmigiano

Num Jantar INÉDITO aqui em Brasília, este Editor que vos escreve promoveu no mês passado uma verdadeira festa de Babette, cujo tema era o queijo Parmigiano Reggiano. Executamos um Menu em três etapas apenas com pratos preparados à base do mais famoso queijo do mundo, o parmesão Reggiano – não confundir com seu primo-pobre, o grana-Padano (risos) – sendo que a ideia INOVADORA era degustar queijos de diferentes maturações, com 24 meses, 30 meses e 36 meses, algo inexistente no Brasil.

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Os pratos servidos aos sortudos convidados (Chef Renata Berford, Wang TS, Chef Jorge Barbosa, Francis, e o casal “queijeiro” Bodani e Marina), foram: Carpaccio al parmigiano en petali con d’olio tartufo; Due sformatini (fichi/prosciutto + burrata/ pomodoro); e RISOTTO Cacio e Pepe – receita do famoso Chef Massimo Bottura. 

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Lógico que este INUSITADO cardápio foi harmonizado com vinhos trazidos da Itália, na maioria orgânicos e biodinâmicos, que a seguir, e em outras postagens iremos descrever para vocês.

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Barolo VIETTI Castiglione DOCG 2010: Piemonte, 24 meses em barricas de carvalho, uva Nebbiolo. Taninos marcantes, mas não verdes, indicando mais uma década de guarda. Não apresentou melhor evolução devido pequeno tempo de guarda – somente cinco anos, o que é pouco para um Barolo deste nível. Mas mostrou-se bem equilibrado e boa acidez, com longa persistência. Nota 90 pts.

CASALE Chianti Riserva Biologico 2005 – Um dos melhores representantes da vinicultura biodinâmica da Itália, este mestre artesão da Toscana, Antonio Giglioli, traz a essência do que seja um Chianti Riserva autêntico, sem máscaras ou enganos modernos. Trabalhando com parreiras de 40 anos, o vinho fermenta com leveduras indígenas e captura tudo de bom que a uva Sangiovese tem a oferecer: frescor e vivacidade, num corpo deliciosamente leve. Toda produção é biodinâmica, sem químicos, sem filtração e livre de SO2 (Sulfitos). Estagia por 30 meses em tonéis de carvalho. Possui aroma aberto de compota e frutas negras do bosque. Na boca é equilibrado e harmonioso, com taninos maduros, pedindo mais cinco anos adiante. Muito elegante e longa persistência. Provar um Chianti como este é fazer desaparecer por completo todos os demais vinhos rotulados com este padrão. Nota 92 pts. Belíssimo!!

 

Por Antonio Coêlho.

Dois Vinhos Ícones; Duas Escolas Distintas

Neste período de Festas de fim de ano, aproveitei para “reviver” alguns rótulos de vinhos (coisa rara, no meu caso…Risos!), e retirar outros novos da adega. Depois de provar cerca de dez rótulos em apenas uma semana, acabei por colocar lado a lado dois grandes ícones da produção mundial, com o mesmo estilo, mesma safra/ano, mas que representam duas escolas vitivinícolas distintas, separadas pelo Oceano das Navegações. Vamos a eles, então.

Beau Sejour2005  Almaviva2005

Almaviva 2005 – É o grande ícone do Novo Mundo, que já vai para sua segunda década de saúde e prestígio. Trata-se de uma das melhores safras deste classudo chileno, resultado da união das vinícolas Concha y Toro (chilena) com a Château Mouton Rothschild (francesa). Esta safra foi a terceira que já provei (2002 e 2004), sendo considerado um vinho de alto nível entre seus pares sul-americanos. 18 meses em barrica, primeiro e segundo uso, muito bem dosados pelo enólogo francês Michel Triou, que executa o blend semi-bordalês: Cab.Sauvignon (74%), Carménère (21%) e Cab.Franc (5%). Confesso que não sou adepto mais de vinhos tipo “carnudos”, no estilo baunilhados e amadeirados, mas este exemplar consagra o que há de melhor na produção de vinhos americanos. Um vinho de “fino-trato”, com aroma frutado e torrefação elegante e frutas vermelhas frescas. Violáceo na cor. Na boca, especial atenção na harmonia entre álcool e taninos. Tipicidade franco-chilena bem presente. Numa degustação às cegas, certamente rivaliza com outros da Europa, fácil, deixando de queixo caído até os preconceituosos de plantão [risos]! Vinho no auge da vida, após 10 anos. Em mais cinco anos não creio estar tão excepcional, assim. Nota 93+ pts.

Château Beau-Séjour Becot 2005 (1er Cru Classé) – Este vinho francês pertencente à família Bécot, cujo Château existe desde séc.XVIII, é da sub-região St.Émilion e está entre os vinte Premier Grand Cru de Bordeaux. Esta excepcional vinícola francesa sempre alcança elevadas qualificações do guia La Revue Du Vin de France, sendo ela a primeira a obter o título 1er. Grand Cru de Bordeaux-B, em 1969. Produção pequena (40.000 gfs/ano), seu líquido é formado de Merlot (70%), Cab.Franc (24%) e Cab.Sauvignon (6%), com 18 meses maturados em barricas novas e velhas. Cor vermelha profunda e límpida. Aromas de frutas negras, chocolate e algum defumado, com leve especiaria. Na boca começam as comparações entre o Almaviva. Este é mais profundo e concentrado. Sabores complexos surgem a cada gole. Delicioso paladar geral, com harmonia espantosa. Estiloso à toda prova. Uma ampola MAGNÍFICA em tudo, exceto por um detalhe: taninos ainda jovens. Isto mesmo! Este fabuloso bordeaux ainda viverá ativo por mais longos 10 anos – outra das diferenças das duas escolas enológicas (chilena e francesa): a longevidade!! Nota 94+ pts.