Decantando a Vida no Café Caviar

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À partir de hoje, o Decantando a Vida estará presente no site Café Caviar, através de um de seus editores, que estará postando a cada quinta, algum assunto relacionado ao mundo do vinho no blog do site.

O Café Caviar é um veículo paulista muito interessante, que tem a proposta de gerar cultura, entretenimento e conhecimento, usando a gastronomia como foco principal. O videocenter do site é muito bem feito, apresentando entrevistas com chefs renomados, sommelier, músicos e donos de restaurantes badalados da cidade. Para ler o blog, que fica na coluna da direita, basta clicar em “mais”, e à seguir no título da postagem.

Confira: www.cafecaviar.com.br/blog/qual-cor-do-vinho-branco/

Vega-Sicilia 1970!

Como alguém disse outro dia, um dos prazeres do vinho está em compartilhar a garrafa. Foi o que aconteceu nessa noite histórica para mim, quando fui convidado pelo meu amigo Edinho, a tomar com ele e seus familiares, uma garrafa do ícone espanhol Vega-Sicilia Único, da grandiosa safra 1970.

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O Vega 1970 é um vinho emblemático. Por mais que essa safra tenha sido maravilhosa, os vinhos caros não vinham vendendo bem. Eles só eram engarrafados sob encomenda, e durante sua vida ele foi transferido inúmeras vezes para concreto, grandes recipientes de carvalho ou barricas, sempre sob os cuidados do atento enólogo Mariano Garcia (hoje não mais em Vega e sim dono de algumas vinícolas como Aalto, Mauro e Maurodos), que cuidava para manter os barris cheios, e evitar ao máximo os efeitos da oxidação.

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Esse vinho chegou ao mercado 25 anos depois da safra, ou seja, em 1995, e suas garrafas magnum somente em 2001. Vega-Sicília não tem um cronograma de lançamento das safras, elas só chegam ao mercado quando eles consideram o vinho pronto para tal. A safra subseqüente a 98, não necessariamente será a 99, poderá até ser, como também poderá ser a 95. Esse Vega 1970 é considerado por muitos, o melhor vinho já feito na Espanha.

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Mas como estava o vinho? Tensão ao abri-lo, a rolha totalmente encharcada não seria removida sem um abridor tipo pinça. Vinhos maduros deve-se ter sempre em mãos um abridor desse tipo. A cor estava até pouco atijolada para a idade do vinho, pensei que iria estar mais. Os aromas se desprendiam da taça em ferrugem, carne e toques medicinais de iodo. Na boca pura elegância, como era de se esperar, sem nenhuma agressividade, sedoso, corpo médio e se tomado às cegas, jamais diria se tratar de um vinho de 40 anos, tanto pela cor, aroma e paladar. Outra surpresa foi a total inexistência de borra. Em minha opinião, esse vinho ainda resiste mais uma década.

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A generosidade de algumas pessoas não poderia deixar de ser citada, pois devido a ela é que foi possível esse meu contato com um vinho que sempre sonhei em tomar, o Vega 70. Edinho, com sua inesgotável simpatia, e que me convidou para essa missão, sua esposa Giuliana Ansiliero que convenceu o dono da garrafa a servi-la nessa noite de comemoração, e ao dono da garrafa, seu Francisco Ansilieiro que nos brindou com histórias pitorescas, o grande vinho, e ainda abriu outra grande garrafa, que contarei em outro momento. Muito obrigado. Clique nas imagens para aumentá-las.

 

Mondaccione 1996

mondaccione1Mondaccione do Luigi Coppo. Uvas plantadas em terreno calcário, na região de Valdivilla, no Piemonte. Maturado por 14 meses em barricas de carvalho, 60% novas. Feito 100% com a uva Freisa, uma parente distante da Nebbiolo, é considerado um dos melhores exemplares da região, feito dessa cepa.                                                                              mondaccione2

O Mondaccione provado era da safra 1996, e estava bem redondo. Cor já evoluída, mantendo uma acidez refrescante e na boca uma cremosidade sem agressão. Já provei alguns rótulos do Coppo, e quase todos envelhecidos, posso dizer que seus vinhos envelhecem muito bem. Quem tiver paciência será recompensado.

Vinho Japonês

kosha2Esses dias provei um vinho japonês, feito com a uva Kosha, que vem sendo bastante comentado nos blogs de vinho. Muita gente diz se parecer com os vinhos feitos de Grüner Veltliner, a uva emblemática da Áustria. Como ainda não tomei um vinho austríaco não posso fazer a comparação.

O vinho tomado tinha o rótulo escrito em português e se chamava Vento, da Adega kosha3d´Aruga. O contra rótulo todo em japonês já não era tão conclusivo. Deduzi pelos números escritos que foram feitas 21.000 garrafas, e que o teor alcoólico era de 12,5%. O vinho em si é um vinho refrescante, com uma cor muito clara, quase parecendo água (se é que água tem cor), corpo levíssimo, sem complexidade aromática. Pode ser que outros vinhos japoneses, feitos com essa uva, tenham características diferentes, mas o que tomei, em minha opinião, não passa de uma curiosidade. O preço que tenho ouvido falar, que esses vinhos estão chegando ao Brasil, é de R$300,00. Apostaria em outras garrafas.

Vinho Cupim

vinhocupimGeléia, madeira, extrato, potência, loooongo final. Vinhos tecnológicos, feitos por tecnocratas, para vender e massificar um determinado gosto, garantindo retorno financeiro e mais e mais vendas.

Não há nada errado nisso, comércio é venda, e nada supera o lucro. Se estivesse do lado comerciante, repetiria as notas dos vinhos, conceitos e premiações de cada vinho do meu portfólio. Como estou do lado consumidor, e tenho noção da estratégia de vendas das lojas e importadoras, esses adjetivos não me convencem.

Esse estilo de vinho, gordo, massudo, doce, pesado e muitas vezes com adstringência elevada, é o que conquista mais facilmente o paladar da maioria dos apreciadores. Já me convenceu também, já comprei e tomei muito vinho assim. Ainda tomo, só não compro. Só se for por engano. Da mesma maneira que não acho errado se produzir cada vez mais esse estilo de vinho, conhecido como “novo mundo”, não vejo nada de errado em preferir outros estilos, como tintos com toques de Brett, aldeído cinâmico, brancos oxidados, brancos naturais com pouco ou nenhum sulfito tornando-os selvagens e estranhos. Nesse assunto não há certo nem errado, tudo depende de que lado você está. Do lado do comércio e seus súditos consumidores de vinho cupim, ou apreciadores de outros estilos, diferentes do citado.

Amalaya Colomé 2006

amalaya_asse_06Este belo exemplar de vinho de altitude argentino é marcante. Seu estilo é pouco exagerado mas definitivamente muito bom pelo preço. Aroma amadeirado excessivo e toques ameixa, lembrando asfalto. Sabor bem adocicado e tostado. A Bodega Colomé é considerada a mais antiga da Argentina, tendo seus primeiros vinhedos plantados em 1831. Amalaya quer dizer “milagre” na língua quíchua, nativa dos incas, porque plantar uvas a uma altitude de quase 3000m é um recorde que o proprietário Hess conseguiu, estabelecendo o vinhedo de maior altitude encontrado no planeta. Com vinhas velhas de 90 anos esta garrafa contém basicamente malbec, com mesclas de c.sauvignon, syrah, tannat e Bonarda. Um custo/benefício que não pode ser desprezado. R$ 41,00.

Chardonnay Zero SO2

chardonnayzero4Os vinhos do Marco Danielle são intrigantes, instrutivos e polêmicos. Onde quer que se fale deles, as opiniões são de louvor ou desaprovação. Com esse Chardonnay Zero não seria diferente. Ele fez um vinho limitado a 400 garrafas, e segundo o próprio, inspirado nos brancos naturais do Vale do Loire, sem adição alguma de So2. Um vinho sem potencial comercial, feito para o seu prazer e de seus amigos, e que ele disse: “Não se repetirá”. A polêmica toda começa quando você abre a garrafa. Um forte aroma de resina toma conta da taça, a cor amarela bem dourada, turva e com precipitações, sugere um vinho defeituoso, e o nome chardonnay escrito na garrafa, te leva confirmar esse pensamento.

Talvez o maior “defeito” desse vinho seja ser desconcertante, que deixa o degustador sem saber se está gostando ou não, se chardonnay pode ser daquele jeito, se aqueles aromas são possíveis em um vinho sem defeito. O maior problema é ser um vinho incompreensível e inconveniente à maioria das pessoas. Digo isso pois já tomei esse vinho em quatro ocasiões distintas, e com pessoas diferentes. Pude perceber a reação de cada uma, o vinho agradou 20% delas, o restante achou ruim e/ou defeituoso, e nesse restante estavam pessoas iniciadas e iniciantes. O que mais incomodava eram os aromas descritos pelos provadores: resina, acetona, cera de abelha, cola tenaz, azeitona. chardonnayzero5Na boca o vinho não era tão problemático, tinha acidez e corpo, a maior reclamação eram mesmo os aromas. O sabor, apesar de intrigante, não incomodava tanto.

Depois dessas quatro oportunidades, me incluo nos 20% que aprovaram  o vinho, com as seguintes ressalvas: acho que é uma boa companhia para uma bouillabaisse, e que são necessárias quatro pessoas para uma garrafa. Não é para ser tomado só, e entendo muito bem os que desaprovaram essa curiosidade.

 

Collezione De Marchi – Isole & Olena: o artista da Toscana!

isoleolenapProvei este ícone no final do ano para celebrar minha data natalícia, no restaurante Villa Tevere (DF). Foi uma experiência incrivelmente plena! Esta garrafa trouxe diretamente da Itália, onde paguei € 50. Seu produtor é daqueles poucos na Itália chamados de vinhateiros de garagem, fabricando verdadeiras obras de arte em vinhos toscanos. Paolo De Marchi iniciou seu trabalho há mais de 20 anos, em glebas da família, conhecidas há meio século por “Isole” e “Olena”, por isso o nome da atual vinícola. Seu excepcional trabalho é reconhecido mundialmente e seus vinhos cultuados pelo personalismo empreendido em cada garrafa. Não fosse por isso, Paolo é um dos expansionistas dos super-toscanos notadamente a partir da década de 1990 – seguindo o rastro do Sassicaia – acrescentando castas estrangeiras aos tradicionais vinhos feitos com a sangiovese. O Collezione De Marchi é um exemplo, feito 100% cabernet. Mas de outra forma, os De Marchi (Paolo e esposa) lutam em trazer de volta a força e fama dos toscanos a partir da uva sangiovese, e há mais de 10 anos faz pesquisas intensas na melhor mescla em seus rótulos – sempre buscando a excelência! Depois de produzir grandes Chiantis clássicos, com sangiovese, canaiolo e uma pitada de shiraz, vem ele com nova abordagem, ainda mais tradicional, após longos estudos. Paolo diz que é possível construir grandes Chiantis (como o Ceparello, 100% sangiovese), bastando dar total atenção ao vinhedo; às vinhas. Diz ele que é na terra onde está o verdadeiro segredo, onde nada era feito na Toscana em tempos pretéritos. Todos queriam trabalhar a cantina, os equipamentos, a modernização, mas só isto não basta, completa ele. Considerado um dos top ten pequenos produtores do mundo, hoje colhe o sucesso, produzindo vinhos expressivos, revolucionando a marca Chianti para o mundo.


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O Collezione De Marchi 1994 provado é definitivamente um cabernet sauvignon diferente. Um cabernet italianíssimo! Esta é a conclusão que chega-se ao tomar esta fantástica ampola. As safras 90 e 97 foram avaliadas em 2000 pela revista WS com 98 e 97 pontos!, e predicados como “ainda um bebê” e “glorioso”. Isole & Olena é dos maiores expoentes da Toscana e possivelmente os melhores supertoscanos da atualidade – desculpem Solaias e Sassicaias [risos]. Este vinho é super elegante e aristocrático. A safra 94 está irrepreensível. Com 15 anos e toda a força juvenil. O sommelier do restaurante V.Tevere inteligentemente usou um decanter-alto para verter lentamente o líquido da garrafa, apenas para abrir seu aroma e sabor (foto). Mostrou cor rubi/violáceo brilhante e médio corpo. Frutas vermelhas, mentol e chocolate surgem na boca. Grande harmonia e boa acidez. De personalidade marcante e aroma bem presente, que salta da taça, com taninos muito bem domados. Produzido artesanalmente para somente 1200 ampolas (a média são 500). Nota: 95 pts. Maravilhoso!